Graça e Paz!
Venho por meio dessa carta (post) expressar a minha - e talvez a de milhares de brasileiros - indignação com a sua mensagem de 20/05/2012*, intitulada “Muito prazer, Espírito Santo”.
Antes de entrar no assunto em questão, gostaria de dizer que a IBAB** é uma igreja que tenho como modelo - por isso minha tristeza. Admiro a sua preocupação/ação com os assuntos sociais. Admiro as suas pregações expositivas, e a profundidade de muitas delas. Admiro a sua busca pela contextualização pós-moderna, e a forma como você utiliza dos diversos meios de comunicação para atingir os mais diversos públicos.
Tal como você, também sou teólogo, e sei muito bem das diversas questões exegéticas que envolve a leitura e interpretação do texto bíblico. Conheço os cuidados que devemos ter com as interpretações fora do contexto, análise das línguas originais, etc. Mas, infelizmente, acredito que dessa vez você abriu mão de tudo isso, e trocou a teologia pela Egologia. Egologia? Sim! Uma doutrina egoísta. Uma doutrina de tudo aquilo que se crê ser mais agradável e aceitável para o indivíduo, a despeito de estar correta, ou não - irei explicar isso mais adiante.
Não sou o tipo de teólogo que se escandaliza com assuntos polêmicos. Sou a favor de criar discussões saudáveis. Aliás, esse é o fantasma que sonda a igreja desde seus primórdios: o medo daqueles que se arriscam a pensar. Cogito, ergo sum (Penso, logo existo) concluiu Descartes, ou seja, se duvidava, necessariamente então também pensava, e se pensava necessariamente existia. O problema é que não pensamos – logo, existimos? Somos condicionados a pensar de acordo com aquilo que é imposto pelo ambiente em que vivemos, e, ponto! Isso se torna mais visível dentro de nossos templos, onde, como robôs, somos treinados a repetir dogmas históricos, e exorcizados se os questionamos. A fé deixa de ser fé, e passa a ser certeza – mesmo que essa seja abstrata.
No entanto, caro Ed René, não foi o que você fez. Você confundiu a cabeça de todos com meros “achismos”. Isto é, “Eu acho”, “Eu gostaria”, “Eu penso que seria muito bom”, “Imagine se”, etc.
“Eu acho”, “Eu gostaria”, “Eu penso que seria muito bom”, são posições para leigos, e não para um pastor de uma comunidade com mais de três mil pessoas, e um líder evangélico com milhares de seguidores. Por favor, não confunda a exegese com aquilo que você acha ser mais agradável. Isso é terrível! O texto pode dar “manga” para diversas interpretações, mas, novamente, se posicione! Não é porque algo me incomoda, que eu vou simplesmente ignorá-lo, ou dizer que da forma Y (inexistente) seria uma opção melhor.
O tema: “Não me envergonho do evangelho”, que vocês estão usando durante esses últimos meses, não condiz nenhum um pouco com a sua mensagem do dia 20/05. Afinal, quem se envergonharia com esse evangelho pregado por você? O evangelho que o Apóstolo Paulo disse que não se envergonha, é aquele que: “(...) é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Mas, se o “crer” não for decisivo, ou se for apenas um “plus”, por que isso seria vergonhoso? Você não acha que seria o contrário?
Acredito que o seu grande conflito é o de aceitar a idéia que no final das contas alguns passarão a eternidade em alegria e festas no céu, enquanto outros milhares estarão para sempre em tormento, no inferno - apesar de eu mesmo defender o aniquilacionismo***, mas, enfim, isso não vem em questão agora. Sua preocupação não é novidade. Ela surge pela necessidade de teólogos, pastores, e muitos cristãos, que queiram comunicar ao mundo uma realidade mais aceitável – de um Deus que é amor – na qual o inferno não faz sentido. A verdade é que ele faz, sim! Todavia, como gostaríamos que ele não fizesse. Como gostaríamos até mesmo que tal conceito não estivesse presente na bíblia, e muito menos nas palavras de Jesus.
Sempre que você fizer teologia como psicoterapia a fim de exorcizar os fantasmas do passado, a teologia acaba se tornando injusta. Não se faz exegese bíblica a partir do seu passado – problemático ou outro. Se você cometer esse erro (e todos nós cometemos de alguma forma ou outra), antropologia e psicologia substituem o lugar da teologia, fazendo com que Jesus acabe se tornando (estranhamente) conforme suas próprias reflexões, como quando olhado no reflexo de uma água cristalina. Tem sido bem dito que um dos problemas dos questionamentos acadêmicos sobre o Jesus histórico é que em muitos casos a nossa biografia acaba se tornando a Dele. Terrível!
Enfim, o grande dilema de teólogos pós-modernos, sejam eles universalistas****, teístas-abertos, liberais, etc., é o dualismo divino, i.e a concepção de Deus (amor) vs Deus (Justo). Pois, se Deus é amor e existe inferno, logo, Deus não é amor, afinal como que ele faria tamanha maldade? Ou se não, como que um Deus que é todo-poderoso deixaria um tsunami destruir milhares de vidas, e mandando muitas para o tormento? Logo, se Deus não pode controlar tamanha tragédia, Deus não é todo-poderoso. Logo, Deus é amor, pois ele escolheu estar à mercê do destino e não se responsabiliza com os futuros eventos cósmicos.
Outro assunto - que sem dúvida não foi percebido por boa parte das pessoas - que eu fiquei um pouco chocado, foi a sutil idéia da não pré-existência de Jesus - sendo Jesus criado por Deus, não co-existindo com ele desde a eternidade. Essa é uma heresia antiga, chamada de Arianismo. Foi criada por Ário*****, por volta do século 319 D.C., na qual afirmava que só existe um Deus e Jesus é seu filho, e não o próprio.
Referente ao ponto acima, acredito - pelo menos, espero!! - que foi algo que nem você tenha percebido. Mas, as conseqüências de uma má interpretação desse dogma podem ser desastrosas.
Enfim, fico um pouco abismado com essa crescente onda de liberalismo em nossas igrejas. Que Deus tenha misericórdia.
Caro, Ed René. Considere essa carta como um desabafo, e não como um artigo teológico. Espero que Deus continue te usando, e que você não se perca em vãs doutrinas.
Um abraço, e
Soli Deo Gloria
Leonardo S.G
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** Igreja Batista de Água Branca
*** Uma doutrina escatológica que diz que a alma dos pecadores serão aniquiladas após a morte de seus corpos físicos.
**** Uma doutrina que diz que todas as almas serão salvas.
***** Bispo de Alexandria





