terça-feira, 29 de maio de 2012

Uma carta ao Pr. Ed René


Graça e Paz!
Venho por meio dessa carta (post) expressar a minha - e talvez a de milhares de brasileiros - indignação com a sua mensagem de 20/05/2012*, intitulada “Muito prazer, Espírito Santo”. 
Antes de entrar no assunto em questão, gostaria de dizer que a IBAB** é uma igreja que tenho como modelo - por isso minha tristeza. Admiro a sua preocupação/ação com os assuntos sociais. Admiro as suas pregações expositivas, e a profundidade de muitas delas. Admiro a sua busca pela contextualização pós-moderna, e a forma como você utiliza dos diversos meios de comunicação para atingir os mais diversos públicos. 
Tal como você, também sou teólogo, e sei muito bem das diversas questões exegéticas que envolve a leitura e interpretação do texto bíblico. Conheço os cuidados que devemos ter com as interpretações fora do contexto, análise das línguas originais, etc. Mas, infelizmente, acredito que dessa vez você abriu mão de tudo isso, e trocou a teologia pela Egologia. Egologia? Sim! Uma doutrina egoísta. Uma doutrina de tudo aquilo que se crê ser mais agradável e aceitável para o indivíduo, a despeito de estar correta, ou não - irei explicar isso mais adiante.
Não sou o tipo de teólogo que se escandaliza com assuntos polêmicos. Sou a favor de criar discussões saudáveis. Aliás, esse é o fantasma que sonda a igreja desde seus primórdios: o medo daqueles que se arriscam a pensar. Cogito, ergo sum (Penso, logo existo) concluiu Descartes, ou seja, se duvidava, necessariamente então também pensava, e se pensava necessariamente existia. O problema é que não pensamos – logo, existimos? Somos condicionados a pensar de acordo com aquilo que é imposto pelo ambiente em que vivemos, e, ponto! Isso se torna mais visível dentro de nossos templos, onde, como robôs, somos treinados a repetir dogmas históricos, e exorcizados se os questionamos. A fé deixa de ser fé, e passa a ser certeza – mesmo que essa seja abstrata.
No entanto, caro Ed René, não foi o que você fez. Você confundiu a cabeça de todos com meros “achismos”. Isto é, “Eu acho”, “Eu gostaria”, “Eu penso que seria muito bom”, “Imagine se”, etc. 
“Eu acho”, “Eu gostaria”, “Eu penso que seria muito bom”, são posições para leigos, e não para um pastor de uma comunidade com mais de três mil pessoas, e um líder evangélico com milhares de seguidores. Por favor, não confunda a exegese com aquilo que você acha ser mais agradável. Isso é terrível! O texto pode dar “manga” para diversas interpretações, mas, novamente, se posicione! Não é porque algo me incomoda, que eu vou simplesmente ignorá-lo, ou dizer que da forma Y (inexistente) seria uma opção melhor. 
O tema: “Não me envergonho do evangelho”, que vocês estão usando durante esses últimos meses, não condiz nenhum um pouco com a sua mensagem do dia 20/05. Afinal, quem se envergonharia com esse evangelho pregado por você? O evangelho que o Apóstolo Paulo disse que não se envergonha, é aquele que: “(...) é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Mas, se o “crer” não for decisivo, ou se for apenas um “plus”, por que isso seria vergonhoso? Você não acha que seria o contrário?
Acredito que o seu grande conflito é o de aceitar a idéia que no final das contas alguns passarão a eternidade em alegria e festas no céu, enquanto outros milhares estarão para sempre em tormento, no inferno - apesar de eu mesmo defender o aniquilacionismo***, mas, enfim, isso não vem em questão agora. Sua preocupação não é novidade. Ela surge pela necessidade de teólogos, pastores, e muitos cristãos, que queiram comunicar ao mundo uma realidade mais aceitável – de um Deus que é amor – na qual o inferno não faz sentido. A verdade é que ele faz, sim! Todavia, como gostaríamos que ele não fizesse. Como gostaríamos até mesmo que tal conceito não estivesse presente na bíblia, e muito menos nas palavras de Jesus. 
Sempre que você fizer teologia como psicoterapia a fim de exorcizar os fantasmas do passado, a teologia acaba se tornando injusta. Não se faz exegese bíblica a partir do seu passado – problemático ou outro. Se você cometer esse erro (e todos nós cometemos de alguma forma ou outra), antropologia e psicologia substituem o lugar da teologia, fazendo com que Jesus acabe se tornando (estranhamente) conforme suas próprias reflexões, como quando olhado no reflexo de uma água cristalina. Tem sido bem dito que um dos problemas dos questionamentos acadêmicos sobre o Jesus histórico é que em muitos casos a nossa biografia acaba se tornando a Dele. Terrível!
Enfim, o grande dilema de teólogos pós-modernos, sejam eles universalistas****, teístas-abertos, liberais, etc., é o dualismo divino, i.e a concepção de Deus (amor) vs Deus (Justo). Pois, se Deus é amor e existe inferno, logo, Deus não é amor, afinal como que ele faria tamanha maldade? Ou se não, como que um Deus que é todo-poderoso deixaria um tsunami destruir milhares de vidas, e mandando muitas para o tormento? Logo, se Deus não pode controlar tamanha tragédia, Deus não é todo-poderoso. Logo, Deus é amor, pois ele escolheu estar à mercê do destino e não se responsabiliza com os futuros eventos cósmicos. 
Outro assunto - que sem dúvida não foi percebido por boa parte das pessoas - que eu fiquei um pouco chocado, foi a sutil idéia da não pré-existência de Jesus - sendo Jesus criado por Deus, não co-existindo com ele desde a eternidade. Essa é uma heresia antiga, chamada de Arianismo. Foi criada por Ário*****, por volta do século 319 D.C., na qual afirmava que só existe um Deus e Jesus é seu filho, e não o próprio.
Referente ao ponto acima, acredito - pelo menos, espero!! - que foi algo que nem você tenha percebido. Mas, as conseqüências de uma má interpretação desse dogma podem ser desastrosas. 
Enfim, fico um pouco abismado com essa crescente onda de liberalismo em nossas igrejas. Que Deus tenha misericórdia.
Caro, Ed René. Considere essa carta como um desabafo, e não como um artigo teológico. Espero que Deus continue te usando, e que você não se perca em vãs doutrinas.
Um abraço, e
Soli Deo Gloria 
Leonardo S.G

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** Igreja Batista de Água Branca

*** Uma doutrina escatológica que diz que a alma dos pecadores serão aniquiladas após a morte de seus corpos físicos.

**** Uma doutrina que diz que todas as almas serão salvas.

***** Bispo de Alexandria 

5 comentários:

  1. obrigada Leonardo por escrever o que escreveu, tenho estado preocupada com as mensagens do Pr.Ed Rene, que o Senhor continue a te usar da maneira como Ele tem feito.
    no amor de Jesus.

    Cida Carneiro

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. É muito tentador usar um texto e defender sua convicção através dele, mesmo que o capítulo seguinte seja contrário a tudo o que foi dito.
    Acompanho as mensagens do Ed e algumas colaboraram muito para minha edificação. Mas percebi com o tempo a necessidade de fazer determinadas ressalvas.
    Há cerca de um ano ouvi uma mensagem com o tema "Quem será salvo" e o texto base foi Mateus 25. O argumento desenvolvido mostrou uma salvação por boas obras, graça e fé ficaram de lado. Tal sermão foi perfeitamente adequado ao incentivo do ativismo social, mas não refletiu a verdadeira doutrina.
    O Universalismo é a cara do mundo pós-moderno, essencial para quem quer ter o respeito da intelligentsia do mundo secular, mas insustentável quando observamos as escrituras.
    Ele, como os outros 2 que comentei com você na semana passada, deixou a filosofia mudar o entendimento da palavra, quando deveria ocorrer justamente o contrário, a palavra deveria mudar a filosofia.
    É lamentável o espaço que o liberalismo está ganhando!

    Parabéns pelo texto.
    Abraço

    Marco

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  4. Pra variar mais um pseudo-teólogo, que sua principal definição é ser "empresário, futuro Mestre em Divindade (MDiv), líder de adolescente, sonhador", que se promove encima da fama dos outros!

    Parabéns por ser mais um nesse mundo de pessoas que se acham na posição de apenas criticar, pois são incapazes de contruir algo ou fazer melhor!

    Quem sabe um dia você se levante da cadeira. crie e de fato alcançe algo, pra que um dia outros caras como você venham lhe criticar.

    Com tanta sabedoria, conhecimento e tamanha capacidade que você procura mostrar que possui, a carência de ibope deve doer...

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    Respostas
    1. Oi Roberto,
      Obrigado pelas suas considerações.
      A sua incapacidade de criticar é tão assombrosa, e chula, que eu tive que pensar duas vezes em responder esse seu post - por isso não vou perder muito tempo.

      1) A sua ignorância é tal, que você confunde as minhas críticas teológicas com a minha vida pessoal - talvez por sua falta de conhecimento, ou talvez porque você é mais um "Zé Ninguém" que acredita em todos os ventos de doutrinas.

      2) Você é tão tolo e incoerente, que acabou caindo nas suas próprias artimanhas (isto é, você aparentemente também se acha na posição de me julgar, logo, que tal fazer algo melhor? Afinal, você que me sugeriu isso, correto?)

      3) Olha, Roberto (se é que esse é seu nome verdadeiro), tenho certeza que eu já me levantei muito mais da cadeira que você imagina. Mas, para que enumera-las para um 'coitado' que nem conheço. Afinal, se a vossa "santidade" já está me criticando, acredito que consegui algo, correto?

      4) Por último, agradeço o seus elogios (de sabedoria, conhecimento...). Mas, se eu quisesse ibope, provavelmente eu trabalharia com comunicação, seria um blogger, teria um site com meu nome, publicaria post diários, ou semanais, e etc., mas, para quem tem um negócio e um ministério que estão indo muito bem, eu deixo o meu ibope (ou nenhuma ibobe, tanto faz, afinal eu não me sustento disso) a critério de tolos como você.

      Enfim, da próxima vez, vamos discutir teologia.

      LSG

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