quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Surpreendendo as Pessoas


O texto abaixo é o esboço - adaptado para o blog - da aula que dei para os adolescentes da Escola Bíblica Dominical (EBD) domingo passado (04/06/11). 

Boa leitura!

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Nessa nova séria de estudos da EBD, iremos abordar os aspectos bíblicos de como surpreender as pessoas, ou seja, como desconcertar, espantar (no bom sentido) e encantar as pessoas em nossa volta.

Com que propósito?

Para escritores de livros de alto-ajuda essa é a chave para o sucesso profissional, e pessoal. Encantamos não para o bem comum, mas para o nosso próprio bem. É um perfeito exemplo de algo que podemos chamar de egocentrismo piedoso. Afinal, qual CEO se preocuparia em lavar os pés daquele funcionário do chão de fábrica? Mas, quantos funcionários do chão de fábrica não estariam dispostos a lavar os pés do CEO em busca de condições melhores de trabalho, ou quem sabe uma promoção?

A despeito das circunstâncias em nossa volta, o que fazer para que eu no meio de tudo isso consiga uma vantagem, seja ela corporativa, familiar e até mesmo eclesiástica?

Amo, dôo, compartilho, abraço, sacrifico tempo, sacrifico dinheiro, pois caso contrário serei politicamente incorreto, Deus vai me castigar, não estarei bem comigo mesmo, a promoção será mais improvável, etc.

Na bíblia encontramos diversas formas de surpreender as pessoas. Porém, os valores são inversos do que vemos no mundo.

Não há benefício.

“Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser o servo...”

Não há vantagem.

“Quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo...”

Há amor.

Amor como o de Cristo.

A glória não é nossa, mas Dele. Não para nós, ou por nós, mas Dele e para Ele.

Como diria João Batista:

“Convém que eu diminua, para que Ele [Jesus] cresça...”

Surpreender as pessoas dentro de uma perspectiva bíblica se torna uma tarefa um tanto quanto difícil, a primeira vista. Irmos contra essa onda de egocentrismo piedoso parece algo perigoso. Aliás, essa era a maior briga de Jesus contra os Fariseus e Escribas:

Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.

Essa é a base do ministério surpreendente de Jesus. Ele não veio abolir o que estava sendo pregado, mas cumprir (do grego plhrw/sai que significa literalmente “encher”), ou seja, o que antes era “ralo” e “provisório”, agora estava completo, cheio de vida, e cheio de significado.

Esses versículos revelam a conexão entre a lei de Deus e o Reino de Deus.

Temos uma lei, um só Senhor - que é maior que a lei, e que se coloca acima dela - e, no entanto, apesar dele ser maior que a lei, nós somos confrontados a ainda estarmos sujeitos a ela, porém com uma nova perspectiva, sabendo que nunca ninguém será capaz de cumpri-la, a não ser por intermédio de Cristo, o qual por intermédio Dele nós fomos salvos ainda pecadores, ou seja, ainda em desobediência da lei. 

Porém, interessantemente nós somos confrontados a termos uma justiça – a justiça era avaliada pela conformidade a lei – SUPERIOR à dos fariseus e mestres da lei (escribas). Como assim? Uma vez que Jesus cumpriu (encheu) a lei, como ainda podemos ser superiores aos fariseus e mestres da lei, sendo que eles são a classe máxima, os famosos por sua justiça, ou seja, por estarem sempre observando a lei?

Não foram eles que calcularam que a lei tem 248 mandamentos, e 365 proibições, somando no total 613 leis a serem obedecidas? Como poderia a justiça cristã exceder essa justiça?

Acaso, podemos dizer que isso é como em um jogo, exemplo: mês passado os cristãos conseguiram obedecer 120 leis, porém os fariseus 110. Ganhamos!

Não!

Os fariseus contentavam-se com uma obediência externa e formal, e isso era suficiente. Jesus ensina-nos que as exigências de Deus são muito mais radicais do que isto.

Por isso que encontramos Jesus dizendo: “Vocês (fariseus e mestres da lei) limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro [eles] estão cheios de ganância e cobiça.”

Um novo conceito de justiça estava nascendo.

Uma justiça profunda.

Uma justiça de coração.

Ao longo do Novo Testamento encontramos alguns casos como o do jovem rico, que apesar de obedecer aos mandamentos, ele se negou em fazer algo que excedesse aquilo pedido na lei. Não que aquilo pedido por Jesus fosse ser capaz de justificá-lo, mas, novamente, um novo conceito de justiça estava nascendo.

Uma justiça profunda.

Uma justiça de coração.

Ou se não aquele discípulo que pediu uma autorização de Jesus para que ele sepultasse seu pai primeiro, e depois seguisse caminho com Jesus. Provavelmente o pai desse discípulo não estivesse morto, mas por costume o filho mais velho tinha obrigação de “sepultar”, ou seja, ficar encarregado do legado da família que seria deixado após a morte de seu pai. Novamente, os costumes e leis ficaram entre Jesus e o discípulo.

Mas, o que tudo isso tem a nos dizer sobre como surpreender as pessoas?

A partir do momento que sua postura se torna padrão, ou seja, que segue a correnteza dos valores e práticas cotidianas, tal postura pode até ser louvável, porém banal por ser pragmática em um ambiente que demanda originalidade. O surpreendente rema contra a correnteza, não em um sentido anarquista, mas rumo ao inexplorável – paradoxalmente não inédito – que nos fazem ver pequenos detalhes. Que nos fazem ver pequenas pessoas grandes. Que nos fazem ver o mundo tal como ele é, e não como fomos condicionados a vê-lo. Surpreender sensibiliza, transforma.

Surpreendemos quando a nossa justiça for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, ou seja, surpreendemos quando nossas ações e atitudes excederem os valores e práticas do mundo.

Isto é...

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês. Mateus 5:38-48

Como diria John Stott: “Em lugar nenhum nossa necessidade do poder do Espírito Santo (cujo primeiro fruto é o amor) é mais constrangedora.” Remamos contra a correnteza, contra os estereótipos, por isso o mundo nos odeia. Por isso que o mundo odiou a Jesus.

Jesus, ao longo do capítulo cinco do evangelho de Mateus, usa cinco vezes a fórmula: “Vocês ouviram o que foi dito, mas eu lhes digo.” Ou seja, existe um padrão. Jesus inverte esse padrão.

Surpreendente!

A vida da velha e decaída humanidade baseia-se na justiça rude, que se vinga das injustiças e retribui os favores, isto é, o padrão estabelece um limite no qual limita o máximo que se pode atingir. No entanto, a vida nova e redimida da humanidade no qual nós somos parte, baseia-se no amor divino, recusando-se à vingança, mas vencendo o mal com o bem.

Ela excede os padrões.

Jesus espera que seus discípulos façam exatamente aquelas coisas que as pessoas acham que não podem ser esperadas de ninguém que tenha a cabeça no lugar.

Jesus espera que surpreendamos as pessoas!

Não apenas a quem amamos. Não apenas os nossos irmãos. Pois o que estaríamos fazendo de mais...?

Mas: os nossos inimigos, aqueles que nos tiram do sério, aqueles que não nos identificamos, os que se vestem diferente, falam diferente, o marginalizado, o pobre, o rico, o doente, o ignorante, iletrado, os que nos perseguem, aquele que tem opinião contrária a nossa, o esnobe, o carente, a prostituta, os homossexuais...

 Fácil?

Pois bem, entendem por que Jesus era odiado? Entendem por que a igreja muitas vezes é perseguida?

O evangelho é inclusivista.

Valoriza a vida.

Surpreende as pessoas.

Quebra barreiras, e paradigmas.

E como Jesus, não mede esforços para sentar com pecadores e prostitutas, para abraçar a mulher adultera (que estava prestes a ser apedrejada), ou em conversar com a mulher samaritana (no qual existia um grande conflito cultural, ideológico, religioso, etc.).

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A expressão suprema da surpresa mais extraordinária do universo foi Cristo crucificado.

Ele, sim, surpreendeu a todos nós.

Pois ele sendo forte, se fez fraco.

Sendo rei, se fez servo.

E no terceiro dia, ele ressurgiu!

Glorioso!

E hoje temos a paz e a certeza de que ele está vivo.

Em nós.

Em tudo.

Quão bela essa surpresa!

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Em Cristo,

L. S. Garcia

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