quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Surpreendendo as Pessoas


O texto abaixo é o esboço - adaptado para o blog - da aula que dei para os adolescentes da Escola Bíblica Dominical (EBD) domingo passado (04/06/11). 

Boa leitura!

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Nessa nova séria de estudos da EBD, iremos abordar os aspectos bíblicos de como surpreender as pessoas, ou seja, como desconcertar, espantar (no bom sentido) e encantar as pessoas em nossa volta.

Com que propósito?

Para escritores de livros de alto-ajuda essa é a chave para o sucesso profissional, e pessoal. Encantamos não para o bem comum, mas para o nosso próprio bem. É um perfeito exemplo de algo que podemos chamar de egocentrismo piedoso. Afinal, qual CEO se preocuparia em lavar os pés daquele funcionário do chão de fábrica? Mas, quantos funcionários do chão de fábrica não estariam dispostos a lavar os pés do CEO em busca de condições melhores de trabalho, ou quem sabe uma promoção?

A despeito das circunstâncias em nossa volta, o que fazer para que eu no meio de tudo isso consiga uma vantagem, seja ela corporativa, familiar e até mesmo eclesiástica?

Amo, dôo, compartilho, abraço, sacrifico tempo, sacrifico dinheiro, pois caso contrário serei politicamente incorreto, Deus vai me castigar, não estarei bem comigo mesmo, a promoção será mais improvável, etc.

Na bíblia encontramos diversas formas de surpreender as pessoas. Porém, os valores são inversos do que vemos no mundo.

Não há benefício.

“Quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser o servo...”

Não há vantagem.

“Quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo...”

Há amor.

Amor como o de Cristo.

A glória não é nossa, mas Dele. Não para nós, ou por nós, mas Dele e para Ele.

Como diria João Batista:

“Convém que eu diminua, para que Ele [Jesus] cresça...”

Surpreender as pessoas dentro de uma perspectiva bíblica se torna uma tarefa um tanto quanto difícil, a primeira vista. Irmos contra essa onda de egocentrismo piedoso parece algo perigoso. Aliás, essa era a maior briga de Jesus contra os Fariseus e Escribas:

Não pensem que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.

Essa é a base do ministério surpreendente de Jesus. Ele não veio abolir o que estava sendo pregado, mas cumprir (do grego plhrw/sai que significa literalmente “encher”), ou seja, o que antes era “ralo” e “provisório”, agora estava completo, cheio de vida, e cheio de significado.

Esses versículos revelam a conexão entre a lei de Deus e o Reino de Deus.

Temos uma lei, um só Senhor - que é maior que a lei, e que se coloca acima dela - e, no entanto, apesar dele ser maior que a lei, nós somos confrontados a ainda estarmos sujeitos a ela, porém com uma nova perspectiva, sabendo que nunca ninguém será capaz de cumpri-la, a não ser por intermédio de Cristo, o qual por intermédio Dele nós fomos salvos ainda pecadores, ou seja, ainda em desobediência da lei. 

Porém, interessantemente nós somos confrontados a termos uma justiça – a justiça era avaliada pela conformidade a lei – SUPERIOR à dos fariseus e mestres da lei (escribas). Como assim? Uma vez que Jesus cumpriu (encheu) a lei, como ainda podemos ser superiores aos fariseus e mestres da lei, sendo que eles são a classe máxima, os famosos por sua justiça, ou seja, por estarem sempre observando a lei?

Não foram eles que calcularam que a lei tem 248 mandamentos, e 365 proibições, somando no total 613 leis a serem obedecidas? Como poderia a justiça cristã exceder essa justiça?

Acaso, podemos dizer que isso é como em um jogo, exemplo: mês passado os cristãos conseguiram obedecer 120 leis, porém os fariseus 110. Ganhamos!

Não!

Os fariseus contentavam-se com uma obediência externa e formal, e isso era suficiente. Jesus ensina-nos que as exigências de Deus são muito mais radicais do que isto.

Por isso que encontramos Jesus dizendo: “Vocês (fariseus e mestres da lei) limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro [eles] estão cheios de ganância e cobiça.”

Um novo conceito de justiça estava nascendo.

Uma justiça profunda.

Uma justiça de coração.

Ao longo do Novo Testamento encontramos alguns casos como o do jovem rico, que apesar de obedecer aos mandamentos, ele se negou em fazer algo que excedesse aquilo pedido na lei. Não que aquilo pedido por Jesus fosse ser capaz de justificá-lo, mas, novamente, um novo conceito de justiça estava nascendo.

Uma justiça profunda.

Uma justiça de coração.

Ou se não aquele discípulo que pediu uma autorização de Jesus para que ele sepultasse seu pai primeiro, e depois seguisse caminho com Jesus. Provavelmente o pai desse discípulo não estivesse morto, mas por costume o filho mais velho tinha obrigação de “sepultar”, ou seja, ficar encarregado do legado da família que seria deixado após a morte de seu pai. Novamente, os costumes e leis ficaram entre Jesus e o discípulo.

Mas, o que tudo isso tem a nos dizer sobre como surpreender as pessoas?

A partir do momento que sua postura se torna padrão, ou seja, que segue a correnteza dos valores e práticas cotidianas, tal postura pode até ser louvável, porém banal por ser pragmática em um ambiente que demanda originalidade. O surpreendente rema contra a correnteza, não em um sentido anarquista, mas rumo ao inexplorável – paradoxalmente não inédito – que nos fazem ver pequenos detalhes. Que nos fazem ver pequenas pessoas grandes. Que nos fazem ver o mundo tal como ele é, e não como fomos condicionados a vê-lo. Surpreender sensibiliza, transforma.

Surpreendemos quando a nossa justiça for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, ou seja, surpreendemos quando nossas ações e atitudes excederem os valores e práticas do mundo.

Isto é...

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.

Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês. Mateus 5:38-48

Como diria John Stott: “Em lugar nenhum nossa necessidade do poder do Espírito Santo (cujo primeiro fruto é o amor) é mais constrangedora.” Remamos contra a correnteza, contra os estereótipos, por isso o mundo nos odeia. Por isso que o mundo odiou a Jesus.

Jesus, ao longo do capítulo cinco do evangelho de Mateus, usa cinco vezes a fórmula: “Vocês ouviram o que foi dito, mas eu lhes digo.” Ou seja, existe um padrão. Jesus inverte esse padrão.

Surpreendente!

A vida da velha e decaída humanidade baseia-se na justiça rude, que se vinga das injustiças e retribui os favores, isto é, o padrão estabelece um limite no qual limita o máximo que se pode atingir. No entanto, a vida nova e redimida da humanidade no qual nós somos parte, baseia-se no amor divino, recusando-se à vingança, mas vencendo o mal com o bem.

Ela excede os padrões.

Jesus espera que seus discípulos façam exatamente aquelas coisas que as pessoas acham que não podem ser esperadas de ninguém que tenha a cabeça no lugar.

Jesus espera que surpreendamos as pessoas!

Não apenas a quem amamos. Não apenas os nossos irmãos. Pois o que estaríamos fazendo de mais...?

Mas: os nossos inimigos, aqueles que nos tiram do sério, aqueles que não nos identificamos, os que se vestem diferente, falam diferente, o marginalizado, o pobre, o rico, o doente, o ignorante, iletrado, os que nos perseguem, aquele que tem opinião contrária a nossa, o esnobe, o carente, a prostituta, os homossexuais...

 Fácil?

Pois bem, entendem por que Jesus era odiado? Entendem por que a igreja muitas vezes é perseguida?

O evangelho é inclusivista.

Valoriza a vida.

Surpreende as pessoas.

Quebra barreiras, e paradigmas.

E como Jesus, não mede esforços para sentar com pecadores e prostitutas, para abraçar a mulher adultera (que estava prestes a ser apedrejada), ou em conversar com a mulher samaritana (no qual existia um grande conflito cultural, ideológico, religioso, etc.).

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A expressão suprema da surpresa mais extraordinária do universo foi Cristo crucificado.

Ele, sim, surpreendeu a todos nós.

Pois ele sendo forte, se fez fraco.

Sendo rei, se fez servo.

E no terceiro dia, ele ressurgiu!

Glorioso!

E hoje temos a paz e a certeza de que ele está vivo.

Em nós.

Em tudo.

Quão bela essa surpresa!

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Em Cristo,

L. S. Garcia

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

E se Jesus fosse neopentecostal

Fonte: Blog do Pava

Se Jesus fosse neopentecostal, não venceria satanás pela palavra, mas teria o repreendido, o amarrado, mandado ajoelhar, dito que é derrotado, feito uma sessão de descarrego durante 7 terças-feiras, aí sim ele sairia. (Mt 4:1-11)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria feito simplesmente o “sermão da montanha”, mas teria realizado o Grande Congresso Galileu de Avivamento Fogo no Monte, cuja entrada seria apenas 250 Dracmas divididas em 4 vezes sem juros. (Mt 5:1-11)

 Se Jesus fosse neopentecostal, jamais teria dito, no caso de alguém bater em uma de nossa face, para darmos a outra; Ele certamente teria mandado que pedíssemos fogo consumidor do céu sobre quem tivesse batido pois “ai daquele que tocar no ungido do senhor” (MT 5 :38-42)

 Se Jesus fosse neopentecost al, não teria curado o servo do centurião de cafarnaum à distância, mas o mandaria levar o tal servo em uma de suas reuniões de milagres e lhe daria uma toalhinha ungida para colocar sobre o seu servo durante 7 semanas, aí sim, ele seria curado. (Mt 8: 5-13)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria multiplicado pães e peixes e distribuído de graça para o povo, de jeito nenhum!! Na verdade o pão ou o peixe seriam “adquiridos” através de uma pequena oferta de no mínimo 50 dracmas e quem comesse o tal pão ou peixe milagrosos seria curado de suas enfermidades. (Jo 6:1-15)

Se Jesus fosse neopentecostal, ele até teria expulsado os cambistas e os que vendiam pombas no templo, mas permaneceria com o comércio, desta vez sob sua gerência. (MT 21:12-13)

Se Jesus fosse neopentecostal, quando os fariseus o pedissem um sinal certamente ele imediatamente levantaria as mãos e de suas mãos sairiam vários arco-íris, um esplendor de fogo e glória se formaria em volta dele que flutuaria enquanto anjos cantarolavam: “divisa de fogo varão de guerra, ele desceu a terra, ele chegou pra guerrear”. E repetiria tal performance sempre que solicitado. (Mt 16:1-12)

Se Jesus fosse neopentecostal, nunca teria tido para carregarmos nossa cruz, perdermos nossa vida para ganhá-la, mas teria dito que nascemos para vencer e que fazemos parte da geração de conquistadores, e que todos somos predestinados para o sucesso. E no final gritaria: receeeeeeebaaaaaa! (Lc 9:23)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria curado a mulher encurvada imediatamente, mas teria a convidado para a Escola de Cura para o aprender os 7… veja bem, os 7 passos para receber a cura divina. (LC 13:10-17)

Se Jesus fosse neopentecostal, de forma alguma teria entrado em Jerusalém montado num jumento, mas teria entrado numa carruagem real toda trabalhada em pedras preciosas, com Poncio Pilatos, Herodes e a cantora Maria Madalena cantando hinos de vitória “liberando” a benção sobre Jerusalém. E o povo não o receberia declarando Hosana! Mas marchariam atrás da carruagem enquanto os apóstolos contariam quantos milhões de pessoas estavam na primeira marcha pra Jesus. (MT 21:1-15)

Se Jesus fosse neopentecostal, ao curar o leproso (Mc 1:40-45), este não ficaria curado imediatamente, mas durante a semana enquanto ele continuasse crendo. Pois se parasse de crer.. aiaiaiai Se Jesus fosse neopentecostal, não teria expulsado o demônio do geraseno com tanta facilidade, Ele teria realizado um seminário de batalha espiritual para, a partir daí se iniciar o processo de libertação daquele jovem. (Mc 5:1-20)

Se Jesus fosse neopentecostal, o texto seria assim: “ Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um pobre entrar no reio dos céus” (Mt 19:22-24)

Se Jesus fosse neopentecostal, não teria transformado água em vinho, mas em Guaraná Dolly. (Jo 2:1-12) 

Se Jesus fosse neopentecostal, ele teria sim onde recostar sua cabeça e moraria no bairro onde estavam localizados os palácios mais chiques e teria um castelo de verão no Egito. (Mt 8:20)

Se Jesus fosse neopentecostal, Zaqueu não teria devolvido o que roubou, mas teria doado seu ao ministério. (Lc 19:1-10)

Se Jesus fosse neopentecostal, não pregaria nas sinagogas, mas na recém fundada Igreja de Cristo, e Judas ao traí-lo não se mataria, mas abriria a Igreja de Cristo Renovada. Se Jesus fosse neopentecostal, não diria que no mundo teríamos aflições, mas diria que teríamos sucesso, honra, vitória, sucesso, riquezas, sucesso, prosperidade, honra…. (Jo 16:33)

Se Jesus fosse neopentecostal, ele seria amigo de Pôncio Pilatos, apoiaria Herodes e só falaria o que os fariseus quisessem ouvir. Certamente, Se Jesus fosse neopentecostal, não sofreria tanto nem morreria por mim nem por você… Ele estaria preocupado com outras coisas.

Ainda bem que não era.

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Em Cristo,

L. S. Garcia

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A oração de Thomas Merton¹


Minha oração também.

Em Cristo,

L. S. Garcia

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SENHOR, MEU DEUS, não tenho idéia para onde estou indo. Não vejo o caminho adiante de mim. Não posso saber com certeza onde terminará. Nem sequer, em verdade, me conheço. E o fato de eu pensar que estou seguindo tua vontade, não significa que realmente o esteja. Mas acredito que o desejo de te agradar te agrada, de fato. E espero ter esse desejo em tudo que estiver fazendo. Espero jamais vir a fazer alguma coisa distante desse desejo. E sei que, se agir assim, tu hás de me levar pelo caminho certo, embora eu possa nada saber sobre o mesmo. Portanto, hei de confiar sempre em ti, ainda que eu possa parecer estar perdido e sob a sombra da morte. Não hei de temer, pois tu sempre estás comigo, e nunca hás de deixar que eu enfrente meus perigos sozinho.

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¹ Thomas Merton foi um monge e escritor católico do século XX

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Uma reflexão sobre a graça


Segue abaixo uma breve ‘reflexão teológica’ sobre a graça, que eu e meu parceiro de seminário Daniel Grubba tivemos.

Apesar de ser um assunto ‘simples’, ele ainda causa muitas divergências de pensamentos. Por isso, não apresento aqui um estudo sistemático, e muito menos exaustivo, sobre o assunto. Mas, uma simples reflexão saudável daquilo que venho a ser a mais bela notícia do universo, que Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores, nos dando assim – de graça – a reconciliação com Deus.¹

A reflexão continua, fique a vontade de deixar seu ponto de vista nos comentários.

Que Deus os abençoe, e boa leitura!

Em Cristo,

L. S. Garcia

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Daniel: Infelizmente muitos escapam do legalismo para abraçar uma graça barata. Oh! Quão maravilhosa é a graça preciosa e como são poucos os que a amam!

Eu: Logo, a graça cara - como diria Dietrich Bonhoeffer ² - seria o meio termo para ambos os extremos?

Daniel: Não me recordo de Bonhoeffer ter usado o termo "graça cara". Entendo que no contexto do livro 'Discipulado' ³ a "graça preciosa" é justamente o meio termo entre aquilo que ele denuncia como extremos, a saber: o fardo pesado e opressivo da religião (legalismo) e a graça barata (a pregação do perdão sem arrependimento, batismo sem a disciplina, Ceia do Senhor sem confissão, absolvição sem confissão pessoal, graça sem discipulado, graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo).

Daniel: Se bem que Bonhoeffer enfatiza o fato de que a graça não custou nada para nós, mas para Deus custou caro - a vida de seu próprio Filho.

Eu: Boa. Na verdade a melhor tradução seria 'costly grace', que esse é o termo que ele usa em seu livro, ou seja, deve existir uma correspondência nossa, existe um 'custo' (não apenas na resposta ao chamado da cruz, mas também no processo de santificação e de discipulado). Errado pensar que, sim, esse 'custo' não nos dá o direito de reivindicar ou alcançar (por méritos próprios) algum favor de Deus, no entanto, sem ele também não temos muitas escolhas. O que, aliás, é um excelente exemplo de paradoxo. Por essa razão muitos se extremam no legalismo.

Eu: Creio, no entanto, que a graça é de fato preciosíssima (logo, cara pois não há espaço para brincadeira)! E uma vez que o amor de Cristo (que teve um custo caríssimo) nos encontra, todo o 'custo' resultante do processo, seja desde a resposta ao chamado ao caminho a ser percorrido, apesar de ser uma constante 'luta', o seu fardo é leve. Dessa forma, nossa 'jornada de fé' dentro dessa terminologia de 'graça custosa' e outros, se torna tão normal quanto o respirar.

Daniel: Tenho refletido muito nestes dias sobre esta graça que não somente nos salva de nossas misérias e rebeldias, mas também nos capacita para seguirmos o chamado da cruz com empenho e alegria. Em especial, nesta semana meditei muito com John Piper sobre a "luta pela alegria em Deus" a luz do texto de II Pe 1 onde diz que devemos lutar para acrescentar a nossa fé toda a sorte de virtudes, a fim de "não sermos inoperantes e improdutivos, esquecendo da purificação dos antigos pecados". Isto é, a graça é oposta ao mérito, mas não ao esforço (Pedro diz: Empenhem-se, lutem!). A graça barata, ao contrário, prega que a "graça faz tudo sozinha", e assim no fim, tudo fica como está: "o mundo continua sendo mundo, e nós continuamos sendo pecadores" (Bonhoeffer).

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¹ Romanos 5

² Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo, pastor luterano, membro da resistência alemã anti-nazista e membro fundador da Igreja Confessante, ala da igreja evangélica contrária à política nazista.

³ Uma das obras mais famosas de Bonhoeffer

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um nehum


Segue abaixo um breve artigo da Viviane Mosé¹.

Como diria o salmista: "Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria". Que possamos refletir um pouco mais sobre a brevidade da vida, e que o evangelho de Cristo nos torne mais humanos; humanos frágeis e limitados, que no entanto contam com um Deus; um Deus que transcende nossa carência. Um Deus que nos torna homens, e não 'Super-Homens'. Boa leitura!

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Senhor arqueólogo, foi muito difícil encontrar um lugar a partir do qual pudesse me dirigir ao senhor. Infinitas são as perspectivas que nosso tempo nos permite, desintegrado que está por tantas razões que não caberiam nesta cartinha. Então, resolvi falar de um lugar comum. O lugar de um homem.

Todo homem é comum mesmo não sendo. O não ser comum do homem parece estar em sua forma própria de ser comum. Em seu jeito singular de sofrer, brincar, envelhecer. Em sua necessidade de construir, simbolizar, criar. Um homem não deixa de ser comum mesmo entre letras, livros, máquinas, sistemas, signos. Um homem é sempre uma trajetória que declina. Que ascende, mas que declina. O comum do homem é sua aparição relâmpago, o seu constituir e o seu perecer. O comum do homem é sua necessidade de dizer, manifestar, inscrever, perpetuar. Ao mesmo tempo sua impossibilidade de permanecer. Todo homem constitui-se na tensão entre viver e morrer, entre dizer e calar, entre subir e descer. Mas, por razões extensas e difíceis, a história humana parece ter se ordenado em torno da vontade de não ser.

Não envelhecer, não sentir dor, não se cansar, não se aborrecer. O homem parece envergonhar-se de ser: pequeno, sensível, mortal, humano. E organiza-se em torno de um ideal de homem, sem corpo. O homem envergonha-se de seu corpo. Não de seu sexo ou de seu prazer, mas de suas vísceras, de seus excrementos, de seus sons e odores, de seu processo bioquímico, fisiológico, orgânico. O homem envergonha-se de morrer e vai acuando-se, escondendo-se, perdendo-se em torno de uma idéia, de uma imagem. Em sua luta por não ser comum, o homem tornou-se nenhum. Todo homem virou nenhum. Nenhum homem na rua, em casa. Nenhum homem na cama. Nenhum homem, mas um nome. O homem se reduziu a um nome. Não um nome próprio, mas um substantivo.

Mas um homem é sempre maior que um nome mesmo que não queira. E uma outra história foi sendo tecida por trás desse desejo de não ser. Enquanto construía seus mecanismos de não corpo, enquanto se constituía como idéia, pensamento, imagem, a humanidade proliferava em seus excessos contidos, em suas angústias não canalizadas, em suas paixões não vividas, em seus pavores maquiados. E um corpo invertido, nascido de tantos corpos abafados, foi constituindo-se socialmente, foi ganhando força e vida. Uma vida invertida, mas uma vida.

Tóxica, ela foi se alastrando pelas casas, pelas ruas, em forma de morte. A morte negada, as perdas e dores abafadas, saíram às ruas reivindicando seu espaço. O que antes esteve circunscrito aos campos de batalha, às margens, aos guetos, agora ganha as escolas, os metrôs, os restaurantes, as praias. Não há mais lugar seguro, carros blindados, condomínios fechados. Agora todos somos igualmente passíveis.
Vivemos a democratização da violência. Vivemos o predomínio daquilo que foi por tanto tempo obstinadamente negado.

A violência trouxe-nos de volta a urgência pelo corpo, pela vida, pelo tempo. E apartou-nos de nosso sonho de perenidade, de futuro, de verdade. Agora, todos estamos órfãos de nosso medíocre projeto de felicidade. Agora é preciso viver, temos urgência do instante, precisamos do corpo, mesmo gordo, magro, estrábico. E aqui, de meu lugar comum, de mulher comum, enquanto lavo a louça do café olhando a cor insistente da tarde que passa, me pergunto por quê? Por que não os dias nublados, as dores do parto, os serviços domésticos? Por que não o escuro, o delírio, a solidão? As lágrimas, os espinhos no pé, as quedas?

Dizem que o homem, como conhecemos, tende a desaparecer. É possível que uma espécie mais forte possa surgir, uma espécie capaz de um dia divertir-se com este nosso hábito demasiadamente humano de negar o inexorável, de controlar o incontrolável, e, não conseguindo, de esconder-se em cápsulas virtuais, em psicotrópicos de ultima geração, em imagens. Um homem que talvez tenha sempre existido pode começar enfim a surgir. Um homem capaz de viver a dor e a alegria de ser mortal, singular, sozinho, comum. Um homem capaz de gritar sua dor impossível. Um homem capaz de cantar. Um homem capaz de viver.

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Em Cristo,

L. S. Garcia

¹ É psicóloga e psicanalista, especialista em “Elaboração e implementação de políticas públicas” pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

devociOUSE


Mas feliz é o homem que confia em mim, o Eterno, e a mulher que se apega ao Eterno! Eles são como árvores plantadas no Éden, com as raízes perto do rio. Não se preocupam com o verão mais quente e suas folhas não perdem o verde. Passam pela seca com tranqüilidade, dando frutos frescos em todas as estações. Jeremias 17:7-8

O que acontece quando tudo o que você crê e tudo que você vive é esmagado pelas circunstâncias?

Essa é uma importante questão a refletir uma semana após o Acampa #Ouse, e até mesmo – aos que não foram – após uma fase bastante próxima de Deus. Cujo tudo aquilo que você viveu acaba sendo sufocado pelas circunstâncias ao seu redor, isto é, trabalho, escola, amizades... Etc.

O profeta Jeremias estava vivendo uma situação bastante singular também. O povo do Reino do Sul (Judá) estava pensando em retornar aos bons tempos de prosperidade econômica, porém a idolatria daquela nação acabou os levando a destruição. Jeremias desempenhou um papel fundamental nesse cenário, profetizando sobre os riscos que a idolatria causaria (cativeiro), e principalmente trazendo algumas palavras de consolo e esperança.

Foram palavras que ainda continuam vivas para nós, jovens e adolescentes, vinte e sete séculos depois. Apesar de vivermos situações bastante diferentes, comparadas àquela época, muitas vezes ainda não sabemos o que pensar, como orar e como continuar quando as situações adversas nos atingem.

Como estamos reagindo – ou iremos reagir - frente a essas situações? Como será tal efeito? Talvez de reformulação de nossas vidas de modo que ela se harmonize com a de Deus? Ou, simplesmente abandonar o Senhor?

Jeremias – nesse mesmo contexto – nos deixa uma resposta (promessa) maravilhosa! A confiança em Deus (Eterno). Feliz é aquele que confia no Senhor, porque independente da situação – repare aqui que a situações adversas estão constantemente atingindo a coitada da árvore, ou seja, ainda assim não será fácil – nós estaremos firmes tal como é uma árvore com raízes perto do rio. Feliz é aquele que confia no Senhor.

Que vocês continuem firmes, pois Jesus o nosso Bom Pastor, é por nós, e, não contra nós.

Feliz é aquele que confia no Senhor Jesus.

Em Cristo,

Leo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Dunamize!


Fui à igreja Dunamis – sim, se tornou uma igreja a despeito de reconhecerem ou não – nessa última sexta-feira, e como praxe não poderia deixar de escrever algo a respeito.

Já faz um bom tempo que venho ouvindo diversas opiniões sobre o “movimento”, algumas positivas e outras bastantes negativas; decidi, portanto, sair de cima do muro e expor aqui as minhas opiniões.

Antes de tudo, o Dunamis é um movimento para-eclesiástico pentecostal que busca alcançar jovens universitários céticos, e um público cristão, onde sua grande maioria são pessoas desiludidas com suas igrejas locais, que futuramente serão desiludidas com o Dunamis, e por ai segue o ciclo.

A palavra Dunamis (ou du,namij) em grego significa: poder, força, milagre, habilidade e capacidade. Em todas as traduções (i.e ACF, ARA, ARC, BRP) do AT (Antigo Testamento) aqui analisadas, esse termo na septuaginta era quase sempre utilizado em referência ao “Exército (du,namij) do Senhor (YHWH)”, sendo que no NT (Novo Testamento) o seu significado ainda é bastante divergente um do outro. Em algumas passagens ele conota uma idéia escatológica, e.g vinda do Reino de Deus (Mc. 9:1), em outras uma habilidade inerente ao Espírito Santo (Lc. 4:14, At. 1:8, At. 4:33, etc), adoração à Deus (Ap. 19:1). Enfim, ao contrário da própria definição no site iDunamis.org, a palavra du,namij não se limita a um poder “explosivo” do Espírito Santo, e muito menos a conotação de ‘dinamite’ – até mesmo porque a dinamite foi criada dezoito séculos depois dos pais apostólicos.

Mas, como esse post não tem um objetivo etimológico e muito menos acadêmico, vamos ao que interessa. O culto.

Senti-me a espera de um show. Centenas de pessoas esperando no corredor, alguns poucos – privilegiados – sentados no sofá, enquanto a porta permanecia fechada, e não me perguntem a razão.

Resolvi dar uma olhada na lojinha. Encontrei diversos livros, entre eles um do Bill Johnson. Fiquei um pouco assustado. O livro dizia que eu iria aprender como “Incentivar a misericórdia divina” nas pessoas em minha volta. Espera ai. Aprender como incentivar a misericórdia divina nas pessoas? Enfim, o vendedor me recomendou entusiasticamente aquele livro, dizendo que ele já tinha lido, etc. Que pena. Sem perder a oportunidade, perguntei: “Então, você poderia me ensinar a como incentivar a misericórdia divina?”. O vendedor deu uma risadinha, ficou um pouco sem graça, e me disse: “É... acho estranho... mas... acho que... eles erraram em escrever isso”.

Mas, como esse post não tem um objetivo crítico-textual, vamos ao que interessa. O culto.

As portas foram abertas. Corre! Corre! Corre! Ainda bem que estava com minha esposa, pois durante a espera pudemos namorar um pouquinho. Sem dúvida éramos os únicos casados ali.

O espaço logo se encheu.

Obs.: Confesso que estava super aberto para ouvir a voz de Deus. Eu e minha esposa oramos muito antes de chegarmos lá.

O início. Infelizmente, o rapaz que deu as boas-vindas não teve tanto sucesso. Começando pela “visão” que ele teve. Ou seja, enquanto orava ele viu foguinhos dando risada e pulando. E ai...? E pelas incessantes risadas – talvez fruto da unção de alegria que estava naquele lugar, de acordo com ele.

Acredito em visões, em sonhos, etc. Mas, em alguns casos eu prefiro deixar cada louco com sua loucura, e cada um com sua visão. Deus no final das contas irá provar o coração de todos.

O louvor. Confesso que gostei muito. Às vezes sinto falta de bons ministros de louvor que se preocupem em adorar e não em bater o cartão. Às vezes sinto falta de ver pessoas, em uma só voz adorando o Rei dos Reis, e não trocando SMS, escrevendo no Twitter, e conversando no corredor.

O dízimo. Ainda bem que eles não recitaram a “benção do dízimo” como é feito a Monte Sião, apesar de ter rolando uma pequena barganha com Deus, aquela idéia veterotestamentária, da antiga aliança: Eu faço assim, e o Senhor (YHWH) age dessa forma, ok?

A palavra. Assumo que esperava algumas heresias, mas felizmente isso não ocorreu. Graças a Deus! Porém, foi fraca teologicamente e biblicamente falando. Esperava mais bíblia, mais conteúdo, mas encontrei experiências de vida. O que praticamente falando, foi interessante e com certeza motivou a muitos.

O fim. Não teve ministração de curas como normalmente acontece. O que daria um post um pouquinho maior aqui. Mas, ouvi algo que não me agradou. O Téo (líder do ministério) antes de acabar o culto teve a infelicidade de dizer: Orem para quem estiver enfermo em sua volta, e só pare quando essa pessoa for curada.

Que pena que o Apóstolo Paulo não estava presente nesse culto. Quem sabe aquele espinho da carne dele fosse curado.

É isso. Apesar das críticas serem válidas, contanto que acrescente à igreja, o movimento Dunamis tem feito barulho. Frutos têm sido colhidos. Vidas têm sido transformadas.

Sempre existirão aqueles que só querem pular, gritar, criar visões, falar línguas decoradas, sentir aquilo que não sentiu, e etc. Uma vez que somos igreja, estamos sujeito a tais pessoas.

O importante é não perder a essência do evangelho. A cruz. A ressurreição. O amor. Jesus.

Se gastarmos mais tempo em qualquer outra coisa, que seja anátema!

Em Cristo,

Leo

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um Deus que está por ai


Paulo provavelmente ouvia falar de Atenas desde pequeno, aliás, todos ouviam falar. Como não ouvir de uma cidade extremamente intelectual, de rica tradição filosófica (Sócrates, Platão e Aristóteles), de sua literatura e arte, e de seus progressos na luta pela liberdade humana.

E pela primeira vez lá estava Paulo, na capital cultural do mundo, enquanto esperava seus companheiros de viagem. A despeito de Atenas ter sido apenas um ponto de espera, ou de ser uma cidade tão glamorosa, com muitas oportunidades de entretenimento, ou de descanso, a primeira reação que Lucas nos apresenta de Paulo foi que “(...) Enquanto esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava da idolatria dominante na cidade.”

Tamanha era a idolatria que o adjetivo usado aqui por Lucas – Kateidolos – no grego não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento. Alguns comentaristas arriscam traduzir essa passagem por uma cidade “sufocada” por ídolos, ou até mesmo por uma “verdadeira floresta de imagens”.

Lucas começa então a descrever a reação de Paulo: primeiro ele viu (vendo a cidade), segundo ele sentiu (grande revolta), terceiro ele fez (começou a dissertar na sinagoga entre judeus e os gregos tementes a Deus, e na praça TODOS os dias com os que ali se achavam), e por fim ele disse:

“Então Paulo ficou de pé no meio do Areópago – O Areópago era o local que antigamente se reunia a corte judicial mais respeitável da antiga Grécia, e nos dias de Paulo também era um local onde os seus membros eram guardiões da religião, moral e educação da cidade – e disse: Homens atenienses, em tudo vejo que sois excepcionalmente religiosos. Porque, ao passar e observar os objetos do vosso culto, encontrei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. É exatamente este que honrais sem conhecer que eu vos anuncio.” Atos 17:22-23

Muitos sermões fazem uma alegoria sobre essa passagem. Paulo é o pregador contemporâneo, Atenas é a cidade local, e a igreja deve tomar vergonha e deixar os seus ídolos do coração. Ou se não, tiram “os quatro passos para um evangelismo eficaz”. E por ai segue a lista...

Mas, Paulo é Paulo, eu sou eu, Atenas é Atenas, Brasil é Brasil, e todos nós temos ídolos do coração que precisamos colocá-los perante Deus em arrependimento. Mas a verdade é que: existe UM DEUS DESCONHECIDO!

Um Deus que está por ai...

Um Deus que as pessoas estão sedentas para encontrá-lo afim de que sua vida inútil e sem significado passe a fazer sentido.

O contexto religioso brasileiro está vivendo uma fase bastante similar com a apresentada pelos Estados Unidos, Europa, e o mundo ocidental em geral. Uma nova geração emergente está surgindo, ou melhor, já emergiu. Uma geração relativista, ou seja, as verdades variam conforme a época, lugar ou grupo social – tudo depende do seu ponto de vista e o que importa é “ser feliz”. Uma geração pluralista, aonde da mesma forma como todos os rios levam ao mar, todos os caminhos levam ao mesmo Deus. Sendo Jesus apenas mais um, entre milhares, de caminhos que visam o mesmo objetivo.

Nossas igrejas estão vivendo um novo paradigma, que englobam todo o nosso sistema religioso, desde a forma como fazemos missões até a forma que nos reunimos como um corpo de Cristo. Estamos começando a negociar valores absolutos e inegociáveis da ortodoxia cristã, pela subjetividade e em nome de sermos uma igreja relevante em nossa cultura.

Nunca estamos satisfeitos com o nosso modo de sermos ekklesia (igreja). A coerência, mais uma vez, não é uma virtude pós-moderna, como diria Kevin DeYoung. Ora criticamos que a igreja deveria ter um espírito mais familiar, porém basta haver famílias demais para acharmos que a igreja está cheia de “panelinhas”. Ora acusamos a igreja por ela não fazer mais para atacar os problemas sociais, mas reclamamos quando a igreja se torna muito política. Por vezes criticamos a falta de comunhão na igreja, mas queremos cultos que permitam experiências de adoração individualizadas. Ora, o que queremos? Se não “estarmos em paz” com nós mesmos! Usando de nossa insatisfação uma arma de autodefesa a favor de nossa vida fútil, e de um mecanismo de fuga de um mundo – onde pintamos com flores, para não vermos a podridão – que está clamando por sentido, significado, e que grita no meio dessa floresta – não de imagens, mas, de idéias subjetivas – por um Deus. UM DEUS DESCONHECIDO.

Um Deus que está por ai...

E o que é isso? Perguntei à terra, e esta me respondeu: “Não sou eu”. E tudo que nela existe me respondeu a mesma coisa. Interroguei o mar, os abismos e os seres vivos, e todos me responderam: “Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que sopram, e toda a atmosfera com seus habitantes me responderam: “Está enganado, não somos o teu Deus”. Interroguei o céu, o sol, a lua e as estrelas: “Nós também não somos o Deus que procuras”. Pedi a todos os seres que me rodeiam o corpo: “Falai-me do meu Deus, já que não sois o meu Deus; dizei-me ao menos alguma coisa sobre ele”. E exclamaram em alta voz: “Foi ele quem nos criou”. ¹

Mas onde, ó bondade verdadeira e suavidade segura? Encontrar-te onde? Se te encontro fora de minha memória, é porque me esqueci de ti. E como poderei encontrar-te, se não me lembro de ti? ²

Lembro-me de ter perdido também muitos objetos e de tê-los procurado e encontrado. Sei disso porque me perguntavam enquanto procurava: “É isto? É aquilo”? E eu continuava a responder não, enquanto não me fosse, mencionado exatamente o que procurava. Se não me recordasse do objeto, qualquer que ele fosse não teria encontrado, por não poder reconhecê-lo, mesmo que me fosse apresentado. É sempre assim que sucede, quando procuramos e encontramos alguma coisa perdida. ³

Um Deus que está por ai...

...Que as pessoas pensam que o conhecem (...) que os “cristãos” pensam que o conhecem,

Muitos o procuram no lugar errado...

Um Deus que está por ai...

Basta encontrá-lo (...)

Como?

Onde?

Quem?

(...) Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pegado do mundo!

Por meio de quem...?

Em Cristo,

L. S. Garcia

¹ Santo Agostinho: Confissões, livro X, cap. 06
² Santo Agostinho: Confissões, livro X, cap. 17
³ Santo Agostinho: Confissões, livro X, cap. 18

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Minha experiência neopentecostal


Nesse último final de semana eu e minha esposa tivemos o prazer, ou melhor, o desprazer de visitarmos uma igreja neopentecostal em Guaratuba. Detalhe: ficamos sabendo que era neopentecostal apenas quando chegamos no local. A princípio estávamos um pouco relutantes em ir, afinal, estávamos curtindo nossos últimos dias de folga (ministério, seminário, trabalho...) no litoral, e o pôr-do-sol estava maravilhoso aquela tarde. Mas, decidimos nos “alimentar” espiritualmente – grande engano nosso.

A título de curiosidade, o movimento neopentecostal é recente no Brasil e fazem parte de sua denominação igrejas como Universal, Mundial e Internacional – entenderam agora o problema? O movimento apesar de ser derivado do pentecostalismo, a sua teologia grita por uma identidade distinta, por isso neo (novo).

Enfim, chegamos na igreja! Como toda igreja pequena de bairro, fomos muito bem acolhidos – tenho que confessar que eles são muito bons nisso – pegaram nossos nomes, nos cumprimentaram etc. O local apesar de pequeno era muito bem arrumado e confortável, com televisores de LCD, bons instrumentos, caixas de som, e tudo mais.

O problema realmente começou quando pegaram o microfone, daí para frente foram duas horas de algo chamado “cristianismo” que estou tentando entender até agora. Por favor, me ajudem!

O louvor, quanto egocentrismo! Eu quero, quero, quero! Me dá, dá, dá! Quantos jargões evangélicos: Quero ser como Naamã, águas profundas, vencer Golias, poder... Porém, a essência de nossa adoração – Jesus, O Cristo – infelizmente, dever ter ficado batendo na porta. O único momento que ouvi Seu nome – durante esse período de louvor – foi quando pediram para que sentássemos, ironicamente.

A hora do dízimo, fiquei surpreso quando o presbítero gastou ao menos 40 minutos para falar da importância de sermos “dizimistas”, de todas as promessas que seriam derramadas, as bênçãos, portas abertas – ou seja, como apertar o botão vermelho para Deus acordar lá do céu. Sem contar os inúmeros abusos contra a palavra do Senhor, quantos versículos usados de forma leviana e fora do contexto. O Presbítero até arriscou fazer uma exegese de duas palavras do hebraico para o português, mas, que triste. Qualquer um que tivesse o mínimo de conhecimento de hebraico, que, aliás, não era o seu caso, teria achado um absurdo a forma como ele usou aquelas traduções. Mas, o pior de tudo isso foi colocar na boca de Jesus, o que foi dito pelo o profeta Oséias, “O meu povo foi destruído por falta de conhecimento”. E infelizmente o povo ainda está sendo destruído por falta de conhecimento, a começar pelos líderes dessa igreja.

Pensei que essa seria a pregação da noite, grande engano meu... O pior ainda estava por vir!

Quando o pastor principal subiu, meus ouvidos já estavam doendo, pois sentamos ao lado da saída de som. Sinto que nesses tipos de igreja a verdadeira espiritualidade consiste em saber gritar mais alto, mesclando com algumas línguas “misteriosas” e soltando uma voz de choro esporadicamente. Mas, damos um desconto, quem sabe ao abrir a bíblia esse homem seja um excelente pregador. Enganamos-nos novamente.

Como todo bom pregador neo-pentecostal, Davi é sempre o nosso maior exemplo a ser seguido. Dessa forma o texto escolhido foi 1 Crônicas 17:7-8. Mas que desastre! Quanto desrespeito pela palavra. Esses dois versículos foram só um pretexto para o pregador usar e abusar de temas como: Vitória, Riqueza, Sermos cabeça e não cauda, Lutarmos para sermos o primeiro, etc. Me pergunto se ele tivesse lido qualquer outros versículo de sua “caixinha de promessas” a pregação teria sido diferente. Creio que não.

A pregação acabou – Ufa! – mas, o que mais me entristeceu não foi apenas o louvor, a pregação abusiva do dízimo, os gritos, não! O Pastor em nenhum momento mencionou o NOME DE JESUS! Como isso doeu! E para finalizar sua mensagem – se assim puder ser considerada – ele teve a cara-de-pau de fazer um apelo! Eu pensei: Só falta ele pedi para aceitarem a Davi como Senhor e Salvador, mas, pelo menos algo de bom. Mesmo assim não conseguia entender uma coisa: Que Jesus alguém ali dentro poderia “aceitar” sendo que a única vez que Seu nome foi mencionado foi na hora de sentarmos?? Eu queria gritar, chorar, pegar o pastor pela gravata, não sei, mas isso não poderia estar acontecendo dentro de uma igreja “cristã”!!

Senti-me um peixe fora d’água. Sabia que a coisa por ai estava ruim, mas, não imaginava quão ruim estava... Eu poderia continuar mencionando atrocidades e mais atrocidades, mas, basta! A história se repete cada vez que ligo a televisão nos horários “evangélicos” da Record, Gazeta, Canal 21, e por ai segue a lista.

Minha indignação não é contra os irmãos daquela congregação, aliás, tenho certeza que muitos ali se preocupam com o verdadeiro evangelho, porém, infelizmente tornam-se cegos com todo o julgo que seus líderes colocam sobre seus ombros. Minha indignação é contra líderes vestidos como ovelhas, mas, que interiormente são lobos devoradores. Que devoram cada centavo e cada raciocínio de suas ovelhas, que jogam fora mais de dois mil anos de cristianismo, e que excluem Jesus Cristo do centro de suas vidas, famílias, igrejas, e o deixam ainda batendo na porta, do lado de fora!

Se me perguntarem para onde irá a igreja, tenho medo e uma única certeza: Uma nova reforma é para ontem!

Sola Gratia, Sola Scriptura, Sola Fide, e Solus Christus.

Soli Deo Gloria,

Leo