O texto abaixo é o esboço - adaptado para o blog - da aula que dei para os adolescentes da Escola Bíblica Dominical (EBD) domingo passado (04/06/11).
Boa leitura!
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Nessa nova séria de estudos da EBD, iremos abordar os aspectos bíblicos de como surpreender as pessoas, ou seja, como desconcertar, espantar (no bom sentido) e encantar as pessoas em nossa volta.
Com que propósito?
Para escritores de livros de
alto-ajuda essa é a chave para o sucesso profissional, e pessoal. Encantamos
não para o bem comum, mas para o nosso próprio bem. É um perfeito exemplo de
algo que podemos chamar de egocentrismo
piedoso. Afinal, qual CEO se preocuparia em lavar os pés daquele
funcionário do chão de fábrica? Mas, quantos funcionários do chão de fábrica
não estariam dispostos a lavar os pés do CEO em busca de condições melhores de
trabalho, ou quem sabe uma promoção?
A despeito das circunstâncias em
nossa volta, o que fazer para que eu no meio de tudo isso consiga uma vantagem,
seja ela corporativa, familiar e até mesmo eclesiástica?
Amo, dôo, compartilho, abraço,
sacrifico tempo, sacrifico dinheiro, pois caso contrário serei politicamente
incorreto, Deus vai me castigar, não estarei bem comigo mesmo, a promoção será
mais improvável, etc.
Na bíblia encontramos diversas
formas de surpreender as pessoas. Porém, os valores são inversos do que vemos
no mundo.
Não há benefício.
“Quem quiser tornar-se importante
entre vocês deverá ser o servo...”
Não há vantagem.
“Quem quiser ser o primeiro
deverá ser escravo...”
Há amor.
Amor como o de Cristo.
A glória não é nossa, mas Dele.
Não para nós, ou por nós, mas Dele e para Ele.
Como diria João Batista:
“Convém que eu diminua, para que
Ele [Jesus] cresça...”
Surpreender as pessoas dentro de
uma perspectiva bíblica se torna uma tarefa um tanto quanto difícil, a primeira
vista. Irmos contra essa onda de egocentrismo
piedoso parece algo perigoso. Aliás, essa era a maior briga de Jesus contra
os Fariseus e Escribas:
“Não pensem que vim abolir a
Lei ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo-lhes a verdade: Enquanto
existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a menor letra ou o
menor traço, até que tudo se cumpra. Todo aquele que desobedecer a um desses
mandamentos, ainda que dos menores, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será
chamado menor no Reino dos céus; mas todo aquele que praticar e ensinar estes
mandamentos será chamado grande no Reino dos céus. Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à
dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus.”
Essa é a base do ministério
surpreendente de Jesus. Ele não veio abolir o que estava sendo pregado, mas
cumprir (do grego plhrw/sai que significa literalmente
“encher”), ou seja, o que antes era “ralo” e “provisório”, agora estava
completo, cheio de vida, e cheio de significado.
Esses versículos revelam a
conexão entre a lei de Deus e o Reino de Deus.
Temos uma lei, um só Senhor - que
é maior que a lei, e que se coloca acima dela - e, no entanto, apesar dele ser
maior que a lei, nós somos confrontados a ainda estarmos sujeitos a ela, porém
com uma nova perspectiva, sabendo que nunca ninguém será capaz de cumpri-la, a
não ser por intermédio de Cristo, o qual por intermédio Dele nós fomos salvos
ainda pecadores, ou seja, ainda em desobediência da lei.
Porém, interessantemente nós
somos confrontados a termos uma justiça – a justiça era avaliada pela
conformidade a lei – SUPERIOR à dos fariseus e mestres da lei (escribas). Como
assim? Uma vez que Jesus cumpriu (encheu) a lei, como ainda podemos ser
superiores aos fariseus e mestres da lei, sendo que eles são a classe máxima,
os famosos por sua justiça, ou seja, por estarem sempre observando a lei?
Não foram eles que calcularam que
a lei tem 248 mandamentos, e 365 proibições, somando no total 613 leis a serem
obedecidas? Como poderia a justiça cristã exceder essa justiça?
Acaso, podemos dizer que isso é
como em um jogo, exemplo: mês passado os cristãos conseguiram obedecer 120
leis, porém os fariseus 110. Ganhamos!
Não!
Os fariseus contentavam-se com
uma obediência externa e formal, e isso era suficiente. Jesus ensina-nos que as
exigências de Deus são muito mais radicais do que isto.
Por isso que encontramos Jesus
dizendo: “Vocês (fariseus e mestres da
lei) limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro [eles] estão cheios
de ganância e cobiça.”
Um novo conceito de justiça
estava nascendo.
Uma justiça profunda.
Uma justiça de coração.
Ao longo do Novo Testamento
encontramos alguns casos como o do jovem rico, que apesar de obedecer aos
mandamentos, ele se negou em fazer algo que excedesse aquilo pedido na lei. Não
que aquilo pedido por Jesus fosse ser capaz de justificá-lo, mas, novamente, um
novo conceito de justiça estava nascendo.
Uma justiça profunda.
Uma justiça de coração.
Ou se não aquele discípulo que
pediu uma autorização de Jesus para que ele sepultasse seu pai primeiro, e
depois seguisse caminho com Jesus. Provavelmente o pai desse discípulo não
estivesse morto, mas por costume o filho mais velho tinha obrigação de
“sepultar”, ou seja, ficar encarregado do legado da família que seria deixado
após a morte de seu pai. Novamente, os costumes e leis ficaram entre Jesus e o
discípulo.
Mas, o que tudo isso tem a nos
dizer sobre como surpreender as pessoas?
A partir do momento que sua
postura se torna padrão, ou seja, que segue a correnteza dos valores e práticas
cotidianas, tal postura pode até ser louvável, porém banal por ser pragmática
em um ambiente que demanda originalidade. O surpreendente rema contra a
correnteza, não em um sentido anarquista, mas rumo ao inexplorável –
paradoxalmente não inédito – que nos fazem ver pequenos detalhes. Que nos fazem
ver pequenas pessoas grandes. Que nos fazem ver o mundo tal como ele é, e não
como fomos condicionados a vê-lo. Surpreender sensibiliza, transforma.
Surpreendemos quando a nossa
justiça for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, ou seja, surpreendemos
quando nossas ações e atitudes excederem os valores e práticas do mundo.
Isto é...
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao
perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se
alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa.
Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe
pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado.
Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo’. Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os
perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus.
Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e
injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os
publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão
fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso! Portanto, sejam perfeitos como
perfeito é o Pai celestial de vocês.” Mateus 5:38-48
Como diria John Stott: “Em lugar
nenhum nossa necessidade do poder do Espírito Santo (cujo primeiro fruto é o
amor) é mais constrangedora.” Remamos contra a correnteza, contra os
estereótipos, por isso o mundo nos odeia. Por isso que o mundo odiou a Jesus.
Jesus, ao longo do capítulo cinco
do evangelho de Mateus, usa cinco vezes a fórmula: “Vocês ouviram o que foi
dito, mas eu lhes digo.” Ou seja, existe um padrão. Jesus inverte esse padrão.
Surpreendente!
A vida da velha e decaída
humanidade baseia-se na justiça rude, que se vinga das injustiças e retribui os
favores, isto é, o padrão estabelece um limite no qual limita o máximo que se
pode atingir. No entanto, a vida nova e redimida da humanidade no qual nós
somos parte, baseia-se no amor divino, recusando-se à vingança, mas vencendo o
mal com o bem.
Ela excede os padrões.
Jesus espera que seus discípulos
façam exatamente aquelas coisas que as pessoas acham que não podem ser esperadas
de ninguém que tenha a cabeça no lugar.
Jesus espera que surpreendamos as
pessoas!
Não apenas a quem amamos. Não
apenas os nossos irmãos. Pois o que estaríamos fazendo de mais...?
Mas: os nossos inimigos, aqueles
que nos tiram do sério, aqueles que não nos identificamos, os que se vestem
diferente, falam diferente, o marginalizado, o pobre, o rico, o doente, o
ignorante, iletrado, os que nos perseguem, aquele que tem opinião contrária a
nossa, o esnobe, o carente, a prostituta, os homossexuais...
Fácil?
Pois bem, entendem por que Jesus
era odiado? Entendem por que a igreja muitas vezes é perseguida?
O evangelho é inclusivista.
Valoriza a vida.
Surpreende as pessoas.
Quebra barreiras, e paradigmas.
E como Jesus, não mede esforços
para sentar com pecadores e prostitutas, para abraçar a mulher adultera (que
estava prestes a ser apedrejada), ou em conversar com a mulher samaritana (no
qual existia um grande conflito cultural, ideológico, religioso, etc.).
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A expressão suprema da surpresa
mais extraordinária do universo foi Cristo crucificado.
Ele, sim, surpreendeu a todos
nós.
Pois ele sendo forte, se fez
fraco.
Sendo rei, se fez servo.
E no terceiro dia, ele ressurgiu!
Glorioso!
E hoje temos a paz e a certeza de
que ele está vivo.
Em nós.
Em tudo.
Quão bela essa surpresa!
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Em Cristo,
L. S. Garcia

