quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A oração de Thomas Merton¹


Minha oração também.

Em Cristo,

L. S. Garcia

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SENHOR, MEU DEUS, não tenho idéia para onde estou indo. Não vejo o caminho adiante de mim. Não posso saber com certeza onde terminará. Nem sequer, em verdade, me conheço. E o fato de eu pensar que estou seguindo tua vontade, não significa que realmente o esteja. Mas acredito que o desejo de te agradar te agrada, de fato. E espero ter esse desejo em tudo que estiver fazendo. Espero jamais vir a fazer alguma coisa distante desse desejo. E sei que, se agir assim, tu hás de me levar pelo caminho certo, embora eu possa nada saber sobre o mesmo. Portanto, hei de confiar sempre em ti, ainda que eu possa parecer estar perdido e sob a sombra da morte. Não hei de temer, pois tu sempre estás comigo, e nunca hás de deixar que eu enfrente meus perigos sozinho.

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¹ Thomas Merton foi um monge e escritor católico do século XX

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Uma reflexão sobre a graça


Segue abaixo uma breve ‘reflexão teológica’ sobre a graça, que eu e meu parceiro de seminário Daniel Grubba tivemos.

Apesar de ser um assunto ‘simples’, ele ainda causa muitas divergências de pensamentos. Por isso, não apresento aqui um estudo sistemático, e muito menos exaustivo, sobre o assunto. Mas, uma simples reflexão saudável daquilo que venho a ser a mais bela notícia do universo, que Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores, nos dando assim – de graça – a reconciliação com Deus.¹

A reflexão continua, fique a vontade de deixar seu ponto de vista nos comentários.

Que Deus os abençoe, e boa leitura!

Em Cristo,

L. S. Garcia

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Daniel: Infelizmente muitos escapam do legalismo para abraçar uma graça barata. Oh! Quão maravilhosa é a graça preciosa e como são poucos os que a amam!

Eu: Logo, a graça cara - como diria Dietrich Bonhoeffer ² - seria o meio termo para ambos os extremos?

Daniel: Não me recordo de Bonhoeffer ter usado o termo "graça cara". Entendo que no contexto do livro 'Discipulado' ³ a "graça preciosa" é justamente o meio termo entre aquilo que ele denuncia como extremos, a saber: o fardo pesado e opressivo da religião (legalismo) e a graça barata (a pregação do perdão sem arrependimento, batismo sem a disciplina, Ceia do Senhor sem confissão, absolvição sem confissão pessoal, graça sem discipulado, graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo).

Daniel: Se bem que Bonhoeffer enfatiza o fato de que a graça não custou nada para nós, mas para Deus custou caro - a vida de seu próprio Filho.

Eu: Boa. Na verdade a melhor tradução seria 'costly grace', que esse é o termo que ele usa em seu livro, ou seja, deve existir uma correspondência nossa, existe um 'custo' (não apenas na resposta ao chamado da cruz, mas também no processo de santificação e de discipulado). Errado pensar que, sim, esse 'custo' não nos dá o direito de reivindicar ou alcançar (por méritos próprios) algum favor de Deus, no entanto, sem ele também não temos muitas escolhas. O que, aliás, é um excelente exemplo de paradoxo. Por essa razão muitos se extremam no legalismo.

Eu: Creio, no entanto, que a graça é de fato preciosíssima (logo, cara pois não há espaço para brincadeira)! E uma vez que o amor de Cristo (que teve um custo caríssimo) nos encontra, todo o 'custo' resultante do processo, seja desde a resposta ao chamado ao caminho a ser percorrido, apesar de ser uma constante 'luta', o seu fardo é leve. Dessa forma, nossa 'jornada de fé' dentro dessa terminologia de 'graça custosa' e outros, se torna tão normal quanto o respirar.

Daniel: Tenho refletido muito nestes dias sobre esta graça que não somente nos salva de nossas misérias e rebeldias, mas também nos capacita para seguirmos o chamado da cruz com empenho e alegria. Em especial, nesta semana meditei muito com John Piper sobre a "luta pela alegria em Deus" a luz do texto de II Pe 1 onde diz que devemos lutar para acrescentar a nossa fé toda a sorte de virtudes, a fim de "não sermos inoperantes e improdutivos, esquecendo da purificação dos antigos pecados". Isto é, a graça é oposta ao mérito, mas não ao esforço (Pedro diz: Empenhem-se, lutem!). A graça barata, ao contrário, prega que a "graça faz tudo sozinha", e assim no fim, tudo fica como está: "o mundo continua sendo mundo, e nós continuamos sendo pecadores" (Bonhoeffer).

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¹ Romanos 5

² Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo, pastor luterano, membro da resistência alemã anti-nazista e membro fundador da Igreja Confessante, ala da igreja evangélica contrária à política nazista.

³ Uma das obras mais famosas de Bonhoeffer

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Um nehum


Segue abaixo um breve artigo da Viviane Mosé¹.

Como diria o salmista: "Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso coração alcance sabedoria". Que possamos refletir um pouco mais sobre a brevidade da vida, e que o evangelho de Cristo nos torne mais humanos; humanos frágeis e limitados, que no entanto contam com um Deus; um Deus que transcende nossa carência. Um Deus que nos torna homens, e não 'Super-Homens'. Boa leitura!

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Senhor arqueólogo, foi muito difícil encontrar um lugar a partir do qual pudesse me dirigir ao senhor. Infinitas são as perspectivas que nosso tempo nos permite, desintegrado que está por tantas razões que não caberiam nesta cartinha. Então, resolvi falar de um lugar comum. O lugar de um homem.

Todo homem é comum mesmo não sendo. O não ser comum do homem parece estar em sua forma própria de ser comum. Em seu jeito singular de sofrer, brincar, envelhecer. Em sua necessidade de construir, simbolizar, criar. Um homem não deixa de ser comum mesmo entre letras, livros, máquinas, sistemas, signos. Um homem é sempre uma trajetória que declina. Que ascende, mas que declina. O comum do homem é sua aparição relâmpago, o seu constituir e o seu perecer. O comum do homem é sua necessidade de dizer, manifestar, inscrever, perpetuar. Ao mesmo tempo sua impossibilidade de permanecer. Todo homem constitui-se na tensão entre viver e morrer, entre dizer e calar, entre subir e descer. Mas, por razões extensas e difíceis, a história humana parece ter se ordenado em torno da vontade de não ser.

Não envelhecer, não sentir dor, não se cansar, não se aborrecer. O homem parece envergonhar-se de ser: pequeno, sensível, mortal, humano. E organiza-se em torno de um ideal de homem, sem corpo. O homem envergonha-se de seu corpo. Não de seu sexo ou de seu prazer, mas de suas vísceras, de seus excrementos, de seus sons e odores, de seu processo bioquímico, fisiológico, orgânico. O homem envergonha-se de morrer e vai acuando-se, escondendo-se, perdendo-se em torno de uma idéia, de uma imagem. Em sua luta por não ser comum, o homem tornou-se nenhum. Todo homem virou nenhum. Nenhum homem na rua, em casa. Nenhum homem na cama. Nenhum homem, mas um nome. O homem se reduziu a um nome. Não um nome próprio, mas um substantivo.

Mas um homem é sempre maior que um nome mesmo que não queira. E uma outra história foi sendo tecida por trás desse desejo de não ser. Enquanto construía seus mecanismos de não corpo, enquanto se constituía como idéia, pensamento, imagem, a humanidade proliferava em seus excessos contidos, em suas angústias não canalizadas, em suas paixões não vividas, em seus pavores maquiados. E um corpo invertido, nascido de tantos corpos abafados, foi constituindo-se socialmente, foi ganhando força e vida. Uma vida invertida, mas uma vida.

Tóxica, ela foi se alastrando pelas casas, pelas ruas, em forma de morte. A morte negada, as perdas e dores abafadas, saíram às ruas reivindicando seu espaço. O que antes esteve circunscrito aos campos de batalha, às margens, aos guetos, agora ganha as escolas, os metrôs, os restaurantes, as praias. Não há mais lugar seguro, carros blindados, condomínios fechados. Agora todos somos igualmente passíveis.
Vivemos a democratização da violência. Vivemos o predomínio daquilo que foi por tanto tempo obstinadamente negado.

A violência trouxe-nos de volta a urgência pelo corpo, pela vida, pelo tempo. E apartou-nos de nosso sonho de perenidade, de futuro, de verdade. Agora, todos estamos órfãos de nosso medíocre projeto de felicidade. Agora é preciso viver, temos urgência do instante, precisamos do corpo, mesmo gordo, magro, estrábico. E aqui, de meu lugar comum, de mulher comum, enquanto lavo a louça do café olhando a cor insistente da tarde que passa, me pergunto por quê? Por que não os dias nublados, as dores do parto, os serviços domésticos? Por que não o escuro, o delírio, a solidão? As lágrimas, os espinhos no pé, as quedas?

Dizem que o homem, como conhecemos, tende a desaparecer. É possível que uma espécie mais forte possa surgir, uma espécie capaz de um dia divertir-se com este nosso hábito demasiadamente humano de negar o inexorável, de controlar o incontrolável, e, não conseguindo, de esconder-se em cápsulas virtuais, em psicotrópicos de ultima geração, em imagens. Um homem que talvez tenha sempre existido pode começar enfim a surgir. Um homem capaz de viver a dor e a alegria de ser mortal, singular, sozinho, comum. Um homem capaz de gritar sua dor impossível. Um homem capaz de cantar. Um homem capaz de viver.

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Em Cristo,

L. S. Garcia

¹ É psicóloga e psicanalista, especialista em “Elaboração e implementação de políticas públicas” pela Universidade Federal do Espírito Santo. Mestra e doutora em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro.