quinta-feira, 16 de junho de 2011

Um Deus que está por ai


Paulo provavelmente ouvia falar de Atenas desde pequeno, aliás, todos ouviam falar. Como não ouvir de uma cidade extremamente intelectual, de rica tradição filosófica (Sócrates, Platão e Aristóteles), de sua literatura e arte, e de seus progressos na luta pela liberdade humana.

E pela primeira vez lá estava Paulo, na capital cultural do mundo, enquanto esperava seus companheiros de viagem. A despeito de Atenas ter sido apenas um ponto de espera, ou de ser uma cidade tão glamorosa, com muitas oportunidades de entretenimento, ou de descanso, a primeira reação que Lucas nos apresenta de Paulo foi que “(...) Enquanto esperava em Atenas, o seu espírito se revoltava da idolatria dominante na cidade.”

Tamanha era a idolatria que o adjetivo usado aqui por Lucas – Kateidolos – no grego não aparece em nenhum outro lugar do Novo Testamento. Alguns comentaristas arriscam traduzir essa passagem por uma cidade “sufocada” por ídolos, ou até mesmo por uma “verdadeira floresta de imagens”.

Lucas começa então a descrever a reação de Paulo: primeiro ele viu (vendo a cidade), segundo ele sentiu (grande revolta), terceiro ele fez (começou a dissertar na sinagoga entre judeus e os gregos tementes a Deus, e na praça TODOS os dias com os que ali se achavam), e por fim ele disse:

“Então Paulo ficou de pé no meio do Areópago – O Areópago era o local que antigamente se reunia a corte judicial mais respeitável da antiga Grécia, e nos dias de Paulo também era um local onde os seus membros eram guardiões da religião, moral e educação da cidade – e disse: Homens atenienses, em tudo vejo que sois excepcionalmente religiosos. Porque, ao passar e observar os objetos do vosso culto, encontrei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. É exatamente este que honrais sem conhecer que eu vos anuncio.” Atos 17:22-23

Muitos sermões fazem uma alegoria sobre essa passagem. Paulo é o pregador contemporâneo, Atenas é a cidade local, e a igreja deve tomar vergonha e deixar os seus ídolos do coração. Ou se não, tiram “os quatro passos para um evangelismo eficaz”. E por ai segue a lista...

Mas, Paulo é Paulo, eu sou eu, Atenas é Atenas, Brasil é Brasil, e todos nós temos ídolos do coração que precisamos colocá-los perante Deus em arrependimento. Mas a verdade é que: existe UM DEUS DESCONHECIDO!

Um Deus que está por ai...

Um Deus que as pessoas estão sedentas para encontrá-lo afim de que sua vida inútil e sem significado passe a fazer sentido.

O contexto religioso brasileiro está vivendo uma fase bastante similar com a apresentada pelos Estados Unidos, Europa, e o mundo ocidental em geral. Uma nova geração emergente está surgindo, ou melhor, já emergiu. Uma geração relativista, ou seja, as verdades variam conforme a época, lugar ou grupo social – tudo depende do seu ponto de vista e o que importa é “ser feliz”. Uma geração pluralista, aonde da mesma forma como todos os rios levam ao mar, todos os caminhos levam ao mesmo Deus. Sendo Jesus apenas mais um, entre milhares, de caminhos que visam o mesmo objetivo.

Nossas igrejas estão vivendo um novo paradigma, que englobam todo o nosso sistema religioso, desde a forma como fazemos missões até a forma que nos reunimos como um corpo de Cristo. Estamos começando a negociar valores absolutos e inegociáveis da ortodoxia cristã, pela subjetividade e em nome de sermos uma igreja relevante em nossa cultura.

Nunca estamos satisfeitos com o nosso modo de sermos ekklesia (igreja). A coerência, mais uma vez, não é uma virtude pós-moderna, como diria Kevin DeYoung. Ora criticamos que a igreja deveria ter um espírito mais familiar, porém basta haver famílias demais para acharmos que a igreja está cheia de “panelinhas”. Ora acusamos a igreja por ela não fazer mais para atacar os problemas sociais, mas reclamamos quando a igreja se torna muito política. Por vezes criticamos a falta de comunhão na igreja, mas queremos cultos que permitam experiências de adoração individualizadas. Ora, o que queremos? Se não “estarmos em paz” com nós mesmos! Usando de nossa insatisfação uma arma de autodefesa a favor de nossa vida fútil, e de um mecanismo de fuga de um mundo – onde pintamos com flores, para não vermos a podridão – que está clamando por sentido, significado, e que grita no meio dessa floresta – não de imagens, mas, de idéias subjetivas – por um Deus. UM DEUS DESCONHECIDO.

Um Deus que está por ai...

E o que é isso? Perguntei à terra, e esta me respondeu: “Não sou eu”. E tudo que nela existe me respondeu a mesma coisa. Interroguei o mar, os abismos e os seres vivos, e todos me responderam: “Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós”. Perguntei aos ventos que sopram, e toda a atmosfera com seus habitantes me responderam: “Está enganado, não somos o teu Deus”. Interroguei o céu, o sol, a lua e as estrelas: “Nós também não somos o Deus que procuras”. Pedi a todos os seres que me rodeiam o corpo: “Falai-me do meu Deus, já que não sois o meu Deus; dizei-me ao menos alguma coisa sobre ele”. E exclamaram em alta voz: “Foi ele quem nos criou”. ¹

Mas onde, ó bondade verdadeira e suavidade segura? Encontrar-te onde? Se te encontro fora de minha memória, é porque me esqueci de ti. E como poderei encontrar-te, se não me lembro de ti? ²

Lembro-me de ter perdido também muitos objetos e de tê-los procurado e encontrado. Sei disso porque me perguntavam enquanto procurava: “É isto? É aquilo”? E eu continuava a responder não, enquanto não me fosse, mencionado exatamente o que procurava. Se não me recordasse do objeto, qualquer que ele fosse não teria encontrado, por não poder reconhecê-lo, mesmo que me fosse apresentado. É sempre assim que sucede, quando procuramos e encontramos alguma coisa perdida. ³

Um Deus que está por ai...

...Que as pessoas pensam que o conhecem (...) que os “cristãos” pensam que o conhecem,

Muitos o procuram no lugar errado...

Um Deus que está por ai...

Basta encontrá-lo (...)

Como?

Onde?

Quem?

(...) Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira o pegado do mundo!

Por meio de quem...?

Em Cristo,

L. S. Garcia

¹ Santo Agostinho: Confissões, livro X, cap. 06
² Santo Agostinho: Confissões, livro X, cap. 17
³ Santo Agostinho: Confissões, livro X, cap. 18