quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O pouco que é muito


“Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o SENHOR, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos. 20 Quando sacudirem as azeitonas das suas oliveiras, não voltem para colher o que ficar nos ramos. Deixem o que sobrar para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva. 21 E quando colherem as uvas da sua vinha, não passem de novo por ela. Deixem o que sobrar para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva. 22 Lembrem-se de que vocês foram escravos no Egito; por isso lhes ordeno que façam tudo isso.” Dt. 24:19-22

Esses versículos mostram algumas leis muito antigas sobre como deveria ser feita a colheita. Antigamente, não entre os povos hebreus, existia um costume que ao colherem, um pouco deveria ser deixado no caminho para agradarem a divindade ou o espírito do campo, o que paralelamente ainda é feito em muitas mesas de bares, quando antes de beberem alguma bebida alcoólica, primeiro derramam no chão para o “santo” e depois continuam a bebedeira.

Mas, seja qual for o conceito que os hebreus haviam trazido, seja do Egito ou dos próprios costumes dos povos pagãos ao redor, em como deveria ser realizada a colheita, Deus aqui se preocupa exclusivamente às atitudes sociais e humanitárias do dono da lavoura com respeito aos economicamente pobres.

Muitas vezes olhamos para as leis do Pentateuco com maus olhos, alegando que são muito complicadas, antigas, e a resposta que usamos para nossa ignorância se resume que Jesus aboliu todas na cruz, portanto, não vivemos mais sobre a lei e sim sobre a graça, e pronto!

Ao nos escondermos atrás de nossa incapacidade de lidar com alguns assuntos “obscuros” da palavra, deixamos de aprender lições belíssimas sobre a vida, e o nosso papel atualmente como bons cristãos. Por isso dizemos que o Deus do Novo Testamento, não pode ser o mesmo Deus do Antigo Testamento. Por isso criticamos as leis – dadas pelo mesmo Deus do NT – alegando serem muito duras, e fora do nosso contexto. Porém, o que vemos aqui é exatamente o oposto.

Israel deveria ser o canal de bênçãos a TODAS as nações da terra (cf. O Chamado de Abraão); e é exatamente isso que Deus ensina para Israel antes de entrar na terra prometida. Deus iria abençoar a lavoura, porém, essas bênçãos não seriam apenas para Israel, mas, para os estrangeiros também. Quem eram os estrangeiros? Os órfãos? As viúvas? Se não a classe mais excluída da sociedade, a classe mais hostilizada, e o grupo cujas limitações de situação social os tornavam especialmente vulneráveis.

Tamanha fraqueza e carência destes lhes mereciam cuidados especiais do Senhor e do povo. Esse versículo representa um aspecto extremamente humanitário, e, em referência à experiência de escravidão que os próprios israelitas tiveram que passar no Egito, e conseqüentemente no deserto. Israel tinha que lembrar tanto dos momentos difíceis que passaram como também a forma que Deus sempre supriu as necessidades básicas do povo (Maná). E como poderiam fazer isso? Se preocupando com o suficiente para o dia, e levando em conta que atrás viriam pessoas muito mais necessitadas do que eles.

Eram em atitudes pequenas que Deus iria usar Israel para revelar a sua misericórdia aos necessitados. Israel não precisava se preocupar com um projeto social para acolher os menos favorecidos, porém, o pouco que fizessem já seria muito para eles!

Às vezes ficamos preocupados em realizar “GRANDES” coisas para o Reino de Deus. Preocupamos-nos em que ministério servir; passamos noites em claro a fim de termos a melhor programação; sentimo-nos “inúteis” por não termos uma posição melhor na igreja; sonhamos em ter um grande projeto social que será reconhecido por muitos, enfim, a idéia do “pouco” parece nos incomodar, muito! Não queremos o pouco, porém, o grande parece distante, logo, criamos a nossa própria zona de conforto. Nela nos sentimos seguro, porém, decepcionados com a vida, e paralisados por sermos incapazes de lidar com a injustiça do mundo.

Logo esquecemos que o pouco pode ser um simples copo de água para o que tem sede (Mateus 10:42) ou à que tem fome (Mateus 14:16), uma atenção especial a quem está desesperado (Lucas 8:47), socorro à quem está ferido (Lucas 10:25-37)... um abraço amigo, o amor incondicional ao seu cônjuge, a obediência aos pais, a generosidade...

Lembremo-nos da parábola do grão de mostarda. Quando Jesus disse que o Reino dos céus é como um grão de mostarda, ele não estava comparando o Reino ao grão, mas sim ao que aconteceria ao grão quando esse estivesse maduro, ou seja, aquilo que a principio era insignificante se tornou a maior das hortaliças.

Por não vermos os frutos ao longo prazo, ficamos desanimados no presente. Provavelmente era o que Israel pensava ao ter que deixar trigos, azeitonas, e uvas para trás. Mas quantas famílias não foram alimentadas com essa ação “pequena”? Quantas crianças não foram nutridas? Quantas vidas não foram poupadas? Mas será que Israel se deu conta disso? Provavelmente não...

E quanto aquilo que fazemos? Como estamos vivendo nossas vidas? Preocupados com o grande, porém, deixando de lado nossos valores, famílias, humildade?

Nossa espiritualidade não se define por quantas vezes sentamos na igreja, levantamos as mãos durante o louvor, fazemos projetos para o grupo de jovens da igreja, mas sim, quanto mais humanos estamos nos tornando frente a um mundo necessitado de atitudes “pequenas”, começando primeiro em nossos lares!

Lembremo-nos do grão de mostarda...

Deus os abençoe!

Leo